Nossa Gente do Brasil

Rigoberto Rosário Jr. (nasceu em Macau e reside em São Paulo)

Histórico/apresentação: Rigoberto Rosário Júnior (também conhecido por Api), autor da canção Macau e membro dos The Thunders,  experimenta nova fase da sua vida musical.  Revela, até então desconhecido pela maioria, que o seu reconhecido talento musical não se deve apenas ao facto de ser autodidata, mas também pelos conhecimentos da teoria musical com a escrita de partituras, adquirida através de estudos em escola de música, além de boa experiência na actuação em área que exigia esse domínio. Esta nova fase verifica-se no seu CD experimental cedido para divulgação no portal na internet <Projecto Memória Macaense>.  Rigoberto incursiona na área da música erudita ao escrever os arranjos para a tradicional música “Macau”, que ele própria executa e grava, com domínio na área de informática e dos instrumentos musicais, o teclado, a bateria e a viola.  Apesar das limitações do teclado , “adquirido dentro das suas possibilidades financeiras”, foi-lhe possível executar a música, tal como uma orquestra, o que dá uma nova dimensão à canção que os macaenses consideram como o seu hino.

Os arranjos escritos por ele, seguem rigorosamente as regras musicais de uma partitura para cada instrumento, o que o leva a sonhar em reger uma orquestra de Macau, quem sabe, no Festival de Música em Macau, facto confidenciado.  Um sonho de compartilhar com a sua gente, uma versão instrumental da música, cujas letras foram escritas numa fase “romântica” da terra que hoje traz o cheiro de convivência harmoniosa de 2 culturas com o nome de RAEM.

Rigoberto, em 1996, por ocasião dos Jogos da Lusofonia, revelou também a outra face dos seus vários talentos artísticos. Como um artesão, expôs em Macau várias miniaturas que reproduziam ambientes dos tempos antigos da terra, tal como o restaurante Va Ih, etc.  Outro talento, talvez também pouco conhecido, se verifica na sua intimidade com o desenho e a pintura, que o pratica tanto profissionalmente como particularmente, até hoje.  Algumas obras estão expostas no portal Projecto Memória Macaense e na Casa de Macau de São Paulo, tendo também como base, temas que falam da gente e as coisas de Macau.

Actualmente possui um vasto repertório de música de composições próprias, “o suficiente para produzir um cd” como diz.  São músicas cujo tema principal, novamente, é Macau, com letras em patuá, português, inglês e chinês-cantonense, cantadas em vários estilos musicais.  Confessa, que tem uma grande vontade de poder gravar um cd próprio, e compartilhar as canções com a comunidade macaense, “quem sabe, até poderia ser num Encontro” diz com um tom sonhador, “nos meus 60 anos quero ainda me permitir a sonhar”, complementa.  (Rogério P.D. Luz – de São Paulo)

Entrevista concedida ao PMM-Projecto Memória Macaense

entrevistador: Rogério P.D. Luz

PMM – Rigoberto, recebi de você um CD com números musicais que me intrigaram um pouco. São músicas clássicas. Você estudou música para conseguir executar e fazer os arranjos de peças eruditas?

Rigoberto – Pois, Já me fizeram esta pergunta muita vezes e até algumas revistas e jornais de Macau escreveram que eu compunha canções sem saber ler uma única nota musical. Isto não é verdade. Foram apenas mal informados.

PMM – Quando e onde foi que estudou música?

Rigoberto - Estudei música aos 11 anos de idade. Aprendi os primeiros solfejos no Colégio D. Bosco, assim como todos os meus colegas da classe. Era uma matéria/disciplina obrigatória para todos os alunos. Nunca fui um bacharel da matéria.

PMM – Continuou a estudar música depois?

Rigoberto – Eu insistia ao meu avô materno para que ele pagasse as minhas aulas de música, já que ele foi um dos membros da orquestra do Dr. Pedro Lobo e era o único da família que desconfiava eu ter “aptidão para música. Por infelicidade, ele veio a falecer antes que conseguisse me matricular no Conservatório de Música do Centro Católico de Macau (que tinha uma mensalidade bastante alta e que o diretor era o Padre-músico Áureo). Com o falecimento do meu avô, como era de costume em Macau naquela época, fiquei de luto por 3 ou 6 meses, não me recordo bem. Então o dinheiro que eu ganhava dos meus pais, semanalmente, fui economizando, já que não podia ir ao cinema (o único divertimento da outrora Macau). No final do período de luto, percebi que eu havia dinheiro suficiente para comprar uma viola (guitarra acústica), que já estive “namorando” há tempos através da vitrine duma loja de instrumentos musicais na Rua do Campo. Não hesitei. Fui e comprei. Voltei para casa todo feliz, arranhando as cordas de aço e sem conhecer sequer a afinação do dito instrumento.

PMM – Quem foram os teus primeiros professores da guitarra?

Rigoberto – Várias pessoas, além dos livros que comprei no Chico Chai, loja que vendia e alugava materiais de música. Comecei dedilhando os acordes que o Neco Barros, Roque Cruz, Zeca Espírito Santo e outros me tinham escritos. Passei depois a praticar a leitura das partituras, tocando o instrumento e lembrando dos solfejos que aprendi no Colégio D. Bosco. Eu era bastante auto-didático. Praticava pelo menos três horas por dia. Um dia, a minha mãe trouxe uma partitura de uma música do tempo da juventude dela, o qual eu nunca tinha ouvido, e disse-me para tocar, num tom desafiante. Pois, coloquei a partitura na minha frente e toquei a peça. Todos da família ficaram pasmos, pois nunca acreditaram que eu tivesse “jeito para música”, com excepção do meu falecido avô materno. Eu estava com 12 anos de idade na altura.

PMM – E depois?

Rigoberto - Aos 13, comecei a fazer parte de conjuntos musicais em Macau, mas nunca usei notas musicais, porque não havia necessidade, apenas os acordes (cifras). Compus “A minha tristeza” aos 13 anos e registrei-a numa partitura, com todas as regras musicais que aprendi com o padre Brianza do colégio. Quando mudei-me para Hong Kong com o conjunto Thunders,  tive oportunidade de conhecer muitos músicos profissionais e fiz grande amizades que conservei-as até hoje. Matriculei-me numa “escola de música para músicos” que havia no prédio onde funcionava o Sindicato dos Músicos Filipinos (Filipino Musicians Union), e só fui aceito em razão das amizades, porque não sou filipino. Isso foi nos anos 70/71.

PMM – Por quanto tempo estudou nesta “escola” e o que aprendeu?

Rigoberto – Estudei por mais de 2 anos e aprendi quase tudo sobre arranjos musicais. Não era uma escolinha para iniciantes, pois o mínimo de requisito era o conhecimento de solfejo. Aprendi a história e limites de cada instrumento musical de cordas, madeira, metais e percussão. Depois foram iniciadas aulas de arranjos musicais para bandas de até 12 elementos, regras, afinação de cada instrumento, etc. Enchi a cabeça de notas musicais, mas saí daí mais “culto” musicalmente.

PMM – Quando foi que fez o primeiro arranjo musical?

Rigoberto – O primeiro, profissionalmente dito, o fiz para a cantora Rowena Cortes (hoje famosíssima na Ásia). Fui contratado para compor uma música/jingle para propaganda do Parque de Diversões Lai-Chi-Kok, para ser transmitida nas rádios e no próprio local. Escolhi a Rowena porque ela sempre foi uma boa cantora e era uma criança naquela época (voz certa para chamar outras crianças ao parque), e levei o Thunders como conjunto de acompanhamento. Escrevi a canção numa partitura para ela e em apenas meia-hora de ensaio, gravamos uma versão em inglês e outra em cantonês. Um outro arranjo, mais sofisticado, foi feito para propaganda das canetas Parker que veiculou nas TVs de Hong Kong. Foi um arranjo para 9 músicos, incluindo instrumentos de sopro. Compus a melodia e fiz o arranjo, mas não tive o poder de contratar os músicos, porque a própria agência já o tinha feito. Deparei-me com músicos filipinos experientes no estúdio e quase fugi pela porta dos fundos, apesar de eu já ter amizade com alguns deles. Na hora que marquei o tempo para começarem o número, fiquei gelado enquanto esperava a reação deles sobre as partituras que acabaram de executar. Olha, saiu tão perfeito que poderia ter gravado logo no primeiro “take”. Até brincaram: “Você não podia simplificar o arranjo?”, etc.

PMM – Aconteceram outras gravações de jingle ou discos?

Rigoberto – Como arranjador, não. Participei das gravações de vários discos (colecção de músicas instrumentais), como guitarrista, produzidos pelo ex-guitarrista do Lotus (Wallace). A leitura de partitura era obrigatória nesse projecto. Eu lia e tocava, porque praticava 3 horas por dia, sem contar as horas de trabalho nocturno com o Thunders. Participei também das gravações para o fundo musical de dois filmes. Um chinês (gênero kung-fu) e outro de produção australiana. Foram boas e novas experiências para mim.

PMM – E  no Brasil?

Rigoberto – No início foi uma decepção. Sonhei em explorar o vasto mercado musical logo na minha chegada. Infelizmente, estive errado. Não conhecia ninguém no meio artístico. Os músicos brasileiros que conheci em Hong Kong ainda não haviam retornado ao Brasil. Fiquei tão desiludido que decidi vender a guitarra Gibson que trouxera comigo. Mesmo assim, era difícil de vender, porque o preço era altíssimo para qualquer músico da noite no Brasil, nos anos 70. Como trabalhava numa companhia aérea brasileira, tive um colega que conhecia a famosa cantora Rita Lee e ela interessou-se em avaliar a minha guitarra, com possibilidade de comprá-la, já que ela era rica. Fiquei feliz com a oportunidade, mas ao mesmo tempo triste, porque sabia que dali para frente a minha carreira de músico terminaria.

PMM – Vendeu a guitarra para Rita Lee?

Rigoberto – Olha, foi por um triz. Chegou até marcar a data para eu levar a guitarra. Numa bela tarde, no balcão da companhia aérea, eu olhava para a rua e vi um sujeito a acenar para mim através da vitrine da loja. Era um dos músicos brasileiros que conheci em Hong Kong que estava de volta. Não só de volta, mas com a banda que trabalhou por toda a Europa e que precisariam de um cantor-guitarrista urgentemente. Não pensei duas vezes. Marcamos a data e fui-me encontrar com os demais membros da banda e acertamos tudo.

PMM – Começou então a nova fase no Brasil?

Rigoberto – Não de imediato. Surgiram novos pesadelos. Ninguém me informou antes que era obrigatório ter a carteira de músico para poder trabalhar no Brasil como tal. E para ter a dita carteira, teria de prestar um exame prático na Ordem dos Músicos do Brasil, o qual consistia em executar o instrumento escolhido, lendo uma partitura pré-escolhida pela mesa julgadora. Surgiu um samba na minha frente. Tremi. Levantei-me para sair da sala, pedi desculpas e expliquei que havia chegado no Brasil recentemente e não sabia tocar ainda o complicado samba. Ao verem a minha honestidade e humildade, deram um bolero mexicano que eu conhecia bem (Adios Marequita Linda). Toquei e passei. Saí desse pesadelo para entrar noutro. Aprender a tocar samba de verdade. Os elementos da banda foram muito camaradas, me ensinaram passo a passo até eu entender a raiz do ritmo. Pensei que samba era só samba, e pronto. Mas não era isso.  Existem vários tipos de samba e tive que aprender todos. Foi assim que consegui seguir a carreira de músico no Brasil. Viajei muito pelo País com a banda e ganhei muita experiência, graças a estes primeiros músicos brasileiros que conheci em São Paulo.

PMM – Trabalhou com outras bandas brasileiras?

Rigoberto – Sim, bastante. Até fui um dos cantores de uma orquestra de 25 músicos que tinha um repertório dos anos 50 e 60 e eu era encarregado das canções do Frank Sinatra e Tony Bennett. Cantar com uma orquestra desse tamanho é outra coisa. O som arrepia mesmo.

PMM – Porque música erudita agora?

Rigoberto – Não é pela idade e estou longe de me aposentar. Estou estudando para o próximo passo que será a música sacra. Já foi tudo acertado para eu reger o coro de jovens da paróquia do meu bairro e pretendo adicionar alguns instrumentos musicais como violino, cello, oboe, contra-baixo, além do órgão de tubos. Uma mini orquestra de câmara. É uma nova experiência para mim. Não será música gregoriana, caso fosse não haveria algum instrumento de acompanhamento. Talvez chegarei lá um dia.

PMM – Então a média estava mal informada sobre o teu conhecimento musical.

Rigoberto – Estava sim. Se eu fizesse composições, arranjos e executasse músicas eruditas sem saber uma única nota musical, eu seria um gênio. Mas não sou. Sou apenas um músico e pessoa normal.

PMM ­­– E se surgisse um convite para a faria com todo prazer regerfazer arranjos musicais e reger a Orquestra de Macau,  numa apresentação, você aceitaria? Ou digamos, reger uma orquestra na sua terra natal para execução, entre outras músicas, a famosa “Macau” de sua composição, tal como esta versão inédita com os arranjos que escrevestes e tocastes, cedidas para divulgação no PMM?

Rigoberto – Olha, seria uma honra e o faria com todo prazer.


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Saiu no JTM

A entrevista saiu no Jornal Tribuna de Macau, edição de 02/02/2010, seção Local ou veja aqui

Mensagem/message para/to Api

Veja mais sobre o Rigoberto (Api) aqui no MacaenseBR


Ouça várias canções do Rigoberto (Api) no Projecto Memória Macaense, com links na página principal e no Espaço Cultural  - Guia Musical


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